Entrevista com Aline Bittencourt

A entrevistada de hoje é a Aline Bittencourt, que é modelo plus size, do Rio de Janeiro, vencedora até de concursos de beleza.

RG – Aline, fale um pouco de você.
Aline - Como carioca e leonina que sou, adoro uma praia, um barzinho, mas amo meu trabalho, e as vezes até me perco no tempo. Tenho 32 anos e não vim ao mundo à passeio. Aprendi que na vida para se conseguir milagres, deve-se doar a sacrifícios. Acredito que todos vivemos predestinados ao sucesso e a felicidade, o que desvia nosso caminho é o orgulho, a vaidade, a inveja e a mentira, coisas que aprendi a lidar mas confesso ainda não aceitá-las muito bem. 

RG – É verdade que você é até hoje a única Musa do Verão Plus Size em nosso país? Fale um pouco dessa experiência.
Aline - Após uma gravidez de risco há seis anos, eu me via "catando meus cacos por aí", auto estima zero e total briga com os espelhos, evitava inclusive, os de elevadores e reflexos de vitrines, qualquer imagem minha era motivo para depressão e depreciação pessoal. Após alguns anos, com a ajuda da minha família e de amigos queridos, consegui me reencontrar e aos poucos me reconstruir. Um dia tomei um "copo de coragem" e me inscrevi em um concurso de beleza nada tradicional, na verdade, este concurso me chamou a atenção justamente por ter esta característica. Este evento elegeria a melhor representante GG de nosso país, que ilustrasse a beleza e a auto estima nacional como nossos dias de verão. As candidatas desfilariam apenas em traje de banho e fariam uma breve arguição onde o jurí atribuía notas e ao final dariam a classificação. Havia muitas "gordinhas lindas", e juro que não estava na pretenção do título, minha vitória pessoal já havia sido conquistada quando entrei no palco de maiô 100% branco, lindo, e tive coragem de me aceitar assim, de frente a um público de quase 5 mil pessoas, como o da Feira de São Cristóvão, local do evento organizado pela miss simpatia e modelo Marlúcia Felix. O Grande Musa do Verão mudou muito minha vida, deu um "up-grade" na minha carreira como modelo Plus Size e fui além do título. Pude com ele ajudar mulheres carentes de amor próprio, e me via dentro dos olhos de cada uma delas, de cada mão áspera de trabalho, de cada rosto maltratado pela rotina. Elas não fazem ideia do quanto me ajudaram. Palestro para algumas comunidades e grupos educacionais até hoje, inclusive faculdades. Mas, voltando ao assunto, sou a única Grande Musa do Verão do Brasil, o título nacional que consagrou também uma vice musa (a gaúcha Nanda Colmenero) e uma musa simpatia (outra carioca, Dannubia Monteiro). As amigas misses, me perdoem a brincadeira, mas musa meu amor, só eu, pelo menos por enquanto. 

RG – Fez bem ao seu ego vencer um concurso de beleza no Rio de Janeiro, uma cidade famosa especialmente pelo culto ao corpo e a boa forma?
Aline - Sim, vencer um concurso de beleza faz bem para qualquer ego. E ganhar na minha cidade, foi uma alegria imensurável. Mas vou abrir meu coração, os melhores frutos deste concurso eu colhi naquele tablado, as amizades que fiz que se fortaleceram até hoje, as amigas, os amigos fotógrafos, jornalistas, os queridos logistas, alguns com laços de amizade estreitos, os maquiadores, pessoas de "pegar no pesado", todos deviam receber uma faixa pela cumplicidade e competência que levaram ao evento, um dos mais belos do país, modéstia a parte. Em relação a sociedade carioca, onde reinam os corpos malhados e sarados, seria hipocrisia afirmar que a maior parte da cidade possui este perfil. Ao contrário, ser musa não é levantar a bandeira da bandeja, ao contrário, eu me cuido e até me cobro por ainda não consegui fazê-lo como devia. Tenho acompanhamento nutricional e endocrinologista, faço minhas caminhadas e quando dá tempo, corro para Icaraí (Niterói) e faço um circuito de areia. Ser GG não significa ser desleixada ou mal amada, significa que se você ama suas curvas deve fazer o melhor possível para mantê-las dominadas e não deixar que elas dominem você.

RG – Como começou no mundo da moda, dos desfiles em geral? 
Aline - Meses antes do concurso, eu fui levar meu filho em uma agência de talentos aqui de Niterói, e chegando lá fui descoberta por uma das profissionais da casa que me passou os primeiros passos. Eu claro, achava aquilo tudo na época, muito engraçado, pensava que uma mãe, gorda, de jeans, não poderia ter nenhuma aptidão artística, imagina ser modelo de alguma coisa. Quando surgiu o concurso, fui até lá e conversei com a minha "fada madrinha", que me incentivou muito em participar. Após o título e até hoje, eles me apoiam e deram inclusive lugar de destaque no site da agência. Confiança e carinho assim, não se encontra na esquina. Após alguns meses, fiz alguns catálogos, desfilei para algumas grifes e lógico, sempre me preparando muito, o ideal é se profissionalizar investindo em algum curso, mas na correria da vida, faço o meu melhor, e felizmente até hoje só tive criticas construtivas.

RG – Você é uma mulher bonita e inteligente. As pessoas te assediam muito?
Aline – Engraçado tocar neste assunto, mas tirando os turcos e árabes tarados do Facebook (que deleto), acho que devo intimidar um pouco. Sou menos assediada do que gostaria. Gosto de homens que fazem rir, mas com graça, afinal, "homem-palhaço", paciência zero. Já me disseram que quando uma mulher sabe o que quer, é bonita, sabe ousar em sua sensualidade sem ser vulgar e ainda por cima é inteligente, tende a ficar sozinha. Ainda estou provando esta teoria.

RG – É vaidosa?
Aline - Depende do conceito de vaidade. Se me cuido, sim, ao menos tento com frequência, cabelos, pele, unhas, faço o estilo urbano chic, amo peças elegantes de alfaiataria, o que é difícil no mercado plus size do Brasil, que ainda está na fase de plantio. Mas acredito na sua força e em seu crescimento, e temos muitos estilistas capacitadíssimos mostrando suas artes.

RG – O que você gosta de fazer em suas horas vagas, seu momento de lazer?
Aline - Nas horas vagas a variedade é grande, vai desde brincar de pirata e montar uma fortaleza no quarto, até um chope com amigos ou cinema. Confesso que amo videokê e um bom samba de raiz, mas quando se acha um bom parceiro de dança, uma gafieira é tudo de bom.

RG – Como é participar de um concurso de beleza?
Aline - É entrar em erupção emocional, é tremer os joelhos e ter medo de cair do salto, é unir forças para manter-se concentrada na postura e na segurança e fazer o seu melhor. É pisar no palco com propriedade de rainha e tomá-lo como seu, sem abrir mão da sua personalidade. Claro que participar exige investimentos e cuidados prévios, você não vai resolver tudo no final. A palavra de lei é planejamento. No dia, fé, segurança e diversão, senão você enlouquece.

RG – Quais seus pratos favoritos?
Aline - Gosto muito da tradicional cozinha japonesa e da mineira, mas meu fraco são os doces. Até me arrisco em fazer alguns pratos em casa, adoro saladas com toques adocicados como passas ou maçãs, mas entre os amigos, sou mesmo famosa pelos meus brigadeiros.

RG – Você acha que o universo plus size, é muito amador ainda em nosso país?
Aline - Se comparado ao exterior, sim. Mas sejamos justos, para um país de terceiro mundo onde o povo não tem memória histórica alguma, conseguir driblar o preconceito da maioria achando que moda plus size é moda de gordo, já é uma vitória. O ideal é comprar peças plus sizes de verdade, com as grifes e lojas especializadas espalhadas inclusive pela internet.

RG – Defina-se.
Aline - Essa devia ser enviada aos meus amigos pois é difícil definir nossa personalidade, mas as qualidades que mais ouço deles é que sou muito alegre, amiga, trabalhadora. Sou uma pessoa justa e detesto mentiras. Sei que tenho mais qualidades e não sou uma pessoa perfeita, mas se nos esforçarmos, quem sabe, não é?
Fotos: Divulgação

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